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Toque de inovação

julho 22nd, 2011  |  Publicado em Sem categoria

No setor público, ela está mais próxima da transformação que do ineditismo e pode ser acessível, sim. Descubra se você é inovador

Normalmente tratada como um assunto específico de empresas privadas, a inovação tem se tornado cada vez mais vital para organizações estatais. Dissociada da competitividade mercadológica, que força constante busca pelo novo, na administração pública, a inovação ganha sinônimos como eficiência, eficácia e efetividade.
“Um executivo que não sabe gerenciar a inovação é incompetente e inadequado para a sua função.” A afirmação é do austríaco naturalizado norte-americano Peter Drucker (1909-2005), um dos maiores teóricos da administração do século 20. Segundo ele, inovar é investir em soluções para responder com rapidez e precisão às necessidades do mercado.
Por outro lado, no setor público, melhorar e facilitar os serviços prestados ao cidadão e democratizar o acesso à informação são características de gestões inovadoras, de acordo com a opinião de especialistas ouvidos pela Dinâmica Pública.

Radical ou incremental

“Eu posso ser um inventor sem ser inovador”, alerta Carlos Ganem, coordenador do Prêmio Finep de Inovação, do Ministério da Ciência e Tecnologia. Ele explica que a inovação pressupõe necessariamente um desejo de mudança. “A invenção é um bem do inventor, a inovação traz um benefício para a sociedade”, afirma. Ele divide a inovação na iniciativa privada em duas categorias: a radical, que cria algo e transforma de forma determinante certa realidade; e a incremental, que introduz mudanças e agrega melhorias a um produto ou processo que já existe.
Assim, a maioria das estratégias de inovação na iniciativa privada está ligada ao conceito de Pesquisa e Desenvolvimento, que visa entrar em escala comercial e impactar o mercado, gerando na sociedade uma urgência de consumo e, com isso, um benefício para a empresa. Porém, para Rodrigo de Araújo Teixeira, analista de Políticas e Indústria do Prêmio CNI de Inovação, existe também a inovação em modelos de negócio, que não tem objetivo mercadológico, mas organizacional. “Nesses casos, não há a inovação tecnológica, mas há internamente uma readequação no modelo produtivo, nos processos e serviços, o que gera igualmente retorno para a empresa”, defende.

Inovação pública

Embora não recente, é crescente a consciência de que a inovação na gestão pública é tão importante quanto na iniciativa privada. “A inovação ajuda na otimização dos recursos e dos processos internos e na prestação de serviços e de contas à sociedade”, sintetiza Patrícia Magalhães de Toledo, diretora da Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologias da Agência de Inovação da Universidade Estadual de Campinas – Inova Unicamp. Na opinião dela, é importante inovar para buscar sempre mais eficiência e eficácia.
Falar em inovação no âmbito público é, então, admitir uma mudança no padrão das políticas e da gestão pública no Brasil. “Uma das formas de operar essa mudança é aumentando o diálogo entre sociedade civil e agentes públicos, incluindo a população no processo de formulação, implementação, avaliação e controle das políticas públicas”, afirma Sabrina Baracchini, em seu artigo A Inovação Presente na Administração Pública Brasileira. Ela lembra que, ao atuar na esfera pública de governo, é preciso ter a preocupação com os mecanismos de que a sociedade dispõe para cobrar e responsabilizar os agentes na ação estatal; mecanismos estes fundamentais para o exercício da cidadania.
Além disso, de acordo com Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia, a inovação é o instrumento fundamental para o crescimento econômico e social, a geração de emprego e renda e a democratização de oportunidades. “A inovação, bem como o conhecimento científico-tecnológico, é um patrimônio social que permite gerar desenvolvimento sustentável, ampliando a produtividade do País e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da população”, acredita Mota. O secretário afirma que quase três quartos da riqueza produzida no planeta são criados não pela produção de coisas físicas, produtos, mas sim pela prestação de serviços.
Segundo dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a inovação contribui diretamente com mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) dos países. Na gestão pública brasileira, a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) e o Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação (PACTI) têm considerado cada vez mais a inovação como um dos fatores centrais para o fortalecimento do País no cenário internacional.

Aplicar e replicar

Depois de nove anos mergulhado no Programa Gestão Pública e Cidadania, desenvolvido pela Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP) e a Fundação Ford, com apoio do BNDES, que tinha por objetivo identificar, divulgar e premiar iniciativas inovadoras na administração pública, Mário Aquino Alves conclui que a inovação na gestão pública pode ser dividida em três tipos. Alves, coordenador do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV, conta que, de 1996 a 2005, o programa recebeu e documentou informações sobre cerca de 8,2 mil experiências.
Baseado nesses dados, o pesquisador afirma que existe inovação quando um serviço para a população é lançado ou melhorado, a exemplo do Poupa Tempo em São Paulo, alternativa ágil e menos burocrática para a obtenção de documentos. A segunda categoria, segundo Alves, trata da inovação territorial-contextual, que não inventa algo novo, mas permite que alguma experiência bem-sucedida seja aplicada e replicada na administração pública de outros territórios e contextos. O terceiro tipo remete à criação de normas ou iniciativas que ampliem a participação e a democratização do espaço público. Aqui entram experiências como o Portal da Transparência e o orçamento participativo.
Entretanto, na opinião de Mário Aquino Alves, a inovação na administração pública, sobretudo no Brasil, ainda está em consolidação. Ele acredita que é relativamente recente a necessidade do chamado controle social por parte da população. “Nas últimas três décadas, com o advento das novas tecnologias e a facilitação do acesso à informação, é crescente a cobrança da sociedade por mais participação e controle sobre a administração pública, mais transparência na utilização dos recursos e mais eficiência na prestação dos serviços”, afirma.

Políticas híbridas: transformar, de olho no mercado

Existe ainda a inovação aplicada à realidade das empresas públicas de economia mista, que são instituições de prestação de serviço público, mas que têm também o fator competitividade. É o caso do Banco do Brasil, que adota um modelo híbrido de inovação. “Nós precisamos estar atentos a como está o País e como está o mercado”, resume Lourivaldo Paula de Lima Jr., gerente executivo da Diretoria de Estratégia e Organização do banco.
A principal ferramenta para que a instituição possa pensar nessa questão é o planejamento estratégico. A área específica de inovação, dentro desta diretoria, é responsável por identificar oportunidades de negócio e estimular iniciativas inovadoras que respondam às necessidades do mercado. “Os gestores precisam se convencer de que a inovação é importante e que ela precisa estar no dia a dia”, alerta o gerente.
Além disso, o setor realiza parcerias com universidades públicas, atua como desenvolvedor de incubadoras de ideias e representa o banco nos fóruns que discutem inovação em fundações, eventos, etc. Lourivaldo Paula de Lima Jr. acredita que a inovação é fator fundamental para a competitividade e acrescenta: “Nos documentos estratégicos da empresa, ela é descrita como um diferencial do negócio; é uma postura empresarial do banco”.

Três Perguntas // Elisabete Ferrarezi

Diretora de Comunicação e Pesquisa da Escola Nacional de Administração Pública (Enap) e coordenadora do Concurso Inovação na Gestão Pública Federal

Existem muitos prêmios de inovação e diversos critérios que tentam definir o que é ou não inovador. Qual o principal critério para definir inovação?

Para nós, que trabalhamos com inovação na gestão pública, a inovação é definida como a mudança em práticas anteriores, seja por meio da incorporação de novos elementos da gestão pública ou de uma nova combinação de mecanismos existentes, que produzam resultados positivos para o serviço público e para a sociedade. A inovação na gestão pública não pode perder o foco na produção de resultados positivos, em ações concretas implementadas com sucesso. Além disso, trabalhamos com grandes ou pequenas inovações. Todas têm um papel a desempenhar na transformação do Estado.

Na iniciativa privada, a inovação está intimamente ligada à competitividade. E na administração pública, qual a maior importância da inovação?

É fundamental inovar na administração pública se quisermos dar aos nossos cidadãos serviços de qualidade. A inovação no setor público está intimamente relacionada com transformação em benefício da sociedade, seja com novos produtos, políticas e serviços públicos, ou com novos processos, como no caso das melhorias na gestão das organizações. Somente com inovação podemos facilitar a vida do brasileiro, diminuindo as burocracias e aumentando a eficiência da saúde, da educação, da previdência social, enfim, de todas as áreas em que o Estado está envolvido.

Inovação é diferencial ou obrigação? Como incentivar a inovação na gestão pública?

Inovar é um ato necessário. Somente com inovação podemos aproximar o Estado da sociedade, conhecer melhor as demandas da população e ser capaz de atender aos mais variados anseios. Um Estado que se mantém permeável a ouvir as questões postas pela sociedade e que promove a inovação, é capaz de responder aos desafios que surgem ao longo do tempo. Disseminar práticas inovadoras já implementadas por organizações públicas é uma das formas de incentivar outros a trilharem novos caminhos. Além disso, de acordo com pesquisas realizadas pela Enap, são as equipes de servidores, isto é, pessoas com vínculo permanente com a organização, que mais dão início a inovações.

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